Pesquise outros blogs aqui!

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Artigo: LINGUAGEM E PRECONCEITO



LINGUAGEM E PRECONCEITO[1]
                                                                            Vinícius de Oliveira Raymundo[2]

           São apenas palavras. Essa é a uma das primeiras, se não a primeira justificativa, da qual fazemos uso quando confrontados por nossas escolhas linguísticas que evidenciam preconceito, ignorando o fato de que as palavras não existem e nem significam sozinhas e que nós não existimos fora delas.
A palavra carrega a história social, cultural, espacial e étnica de sua origem, podendo deixar de existir, quando não há mais a situação de seu uso e não tem seu significado ampliado; ou permanecer no curso da história de uma comunidade linguística. Ao entender esse processo, percebemos que as significações atribuídas ao longo da história às palavras ainda fazem parte dessas e da nossa cultura, refletindo toda uma situação social que a justifica.
Além disso, distanciando a ideia de que as palavras são apenas ferramentas inertes das quais fazemos uso, podemos notar que a ideologia social e a etimologia interferem diretamente na construção do significado das palavras. Diversos vocábulos evidenciam isso: traveco compartilha do mesmo sufixo -eco que atribui pouco valor às palavras livreco e jornaleco; judiar e denegrir compartilham morfemas com judeu e negro; vadia e vadio dificilmente podem ser entendidos como feminino e masculino de uma mesma palavra; e outras várias expressões como “gordo só faz gordice!”, “isso é coisa de mulherzinha!”, “negro safado”, que são de uso popular frequente.
E, quando fazemos usos dessas palavras ou expressões, não só recuperamos parte de seu significado e de sua história, reforçamos a sua validade. Por exemplo, ao utilizarmos os termos vadia e vadio, estamos sustentando, por meio da discrepância dos significados, as diferenças de liberdade entre um homem e uma mulher, revalidando, portanto, alguns preconceitos, enquanto construímos e recobramos experiências por meio do discurso, uma vez que a significação histórica e social das palavras extrapola nosso controle.
Diante do valor que as palavras carregam, percebemos que as escolhas linguísticas significam muito mais do que superficialmente parecem. Na fala mais banal, reconstroem-se e manifestam-se diversas ideologias preconceituosas, mesmo que o falante não as perceba, deixando para nós apenas o questionamento: até quando sustentaremos e permitiremos que outros sustentem o discurso de que são apenas palavras?


[1] Artigo de opinião apresentado à disciplina de Produção Textual, ministrada pela profª Drª Alessandra Avila Martins.
[2] Acadêmico do 6º semestre do curso de Letras Português/Inglês, da Universidade Federal do Rio Grande (FURG).



Foto do graduando Vinicius de Oliveira Raymundo do curso de Letras Português/Inglês (6ºsemestre) da Universidade Federal do Rio Grande (FURG)

Nenhum comentário:

Postar um comentário