LINGUAGEM
E PRECONCEITO[1]
Vinícius de Oliveira Raymundo[2]
São apenas palavras. Essa é a uma das primeiras, se não a primeira justificativa, da qual fazemos uso quando confrontados por nossas escolhas linguísticas que evidenciam preconceito, ignorando o fato de que as palavras não existem e nem significam sozinhas e que nós não existimos fora delas.
A palavra carrega a história social, cultural,
espacial e étnica de sua origem, podendo deixar de existir, quando não há mais
a situação de seu uso e não tem seu significado ampliado; ou permanecer no
curso da história de uma comunidade linguística. Ao entender esse processo,
percebemos que as significações atribuídas ao longo da história às palavras
ainda fazem parte dessas e da nossa cultura, refletindo toda uma situação
social que a justifica.
Além disso, distanciando a ideia de que as
palavras são apenas ferramentas inertes das quais fazemos uso, podemos notar
que a ideologia social e a etimologia interferem diretamente na construção do
significado das palavras. Diversos vocábulos evidenciam isso: traveco compartilha do mesmo sufixo -eco que atribui pouco valor às palavras livreco e jornaleco; judiar e denegrir compartilham morfemas com judeu e negro; vadia e vadio dificilmente podem ser entendidos
como feminino e masculino de uma mesma palavra; e outras várias expressões como
“gordo só faz gordice!”, “isso é coisa de mulherzinha!”, “negro safado”, que são de uso popular
frequente.
E, quando fazemos usos dessas palavras ou
expressões, não só recuperamos parte de seu significado e de sua história,
reforçamos a sua validade. Por exemplo, ao utilizarmos os termos vadia e vadio, estamos sustentando, por meio da discrepância dos
significados, as diferenças de liberdade entre um homem e uma mulher,
revalidando, portanto, alguns preconceitos, enquanto construímos e recobramos experiências
por meio do discurso, uma vez que a significação histórica e social das
palavras extrapola nosso controle.
Diante do valor que as palavras carregam,
percebemos que as escolhas linguísticas significam muito mais do que
superficialmente parecem. Na fala mais banal, reconstroem-se e manifestam-se
diversas ideologias preconceituosas, mesmo que o falante não as perceba,
deixando para nós apenas o questionamento: até quando sustentaremos e
permitiremos que outros sustentem o discurso de que são apenas palavras?
[1] Artigo de opinião apresentado à disciplina de
Produção Textual, ministrada pela profª Drª Alessandra Avila Martins.
[2] Acadêmico do 6º semestre do curso de Letras
Português/Inglês, da Universidade Federal do Rio Grande (FURG).
Foto do graduando Vinicius de Oliveira Raymundo do curso de Letras Português/Inglês (6ºsemestre) da Universidade Federal do Rio Grande (FURG)

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