EU E A LEITURA[1]
Por Pedro G. Moreira[2]
Desde pequeno sou fascinado pelas
palavras. Olhava as letras agrupadas e ficava horas imaginando, acariciando as
páginas – isso tudo me deleitava. Eu sabia que por trás de todas aquelas formas
miúdas se escondiam muitas coisas; o mundo todo cabia nas folhas dos livros e
revistas que eu espiava.
Me lembro, para minha felicidade e
orgulho, do primeiro livro que “li”, O Oscar Levou a Culpa, de Tony Ross. Na
verdade, minha irmã o leu uma vez em voz alta ao passo que me mostrava as
ilustrações. A minha tarefa, depois, era recontar para os colegas de turma a
história. Quando fiquei em frente deles, todos me olhavam com curiosidade, conforme
eu olhava as ilustrações, me recordava do que minha irmã havia lido para mim e
repetia em voz alta. Foi uma experiência interessante, os professores pareciam
não acreditar, os alunos ficaram muito animados para chegar logo a vez de lerem
um livro pra todo mundo ouvir.
Penso que eu lia antes mesmo de ser
alfabetizado. Eu podia ler as imagens, a forma das letras e palavras e, se hoje
escrevo, isso se deve muito ao fato de que eu inventava histórias para
preencher a lacuna entre a forma e o significado. Anos depois, quando
finalmente aprendi a ler as palavras, eu percebi que o mundo era muito maior,
ele se alargou para além do que eu conhecia ou podia conhecer. Nunca mais ele
seria percebido da mesma maneira.
Os livros foram surgindo. Li de
tudo: Machado de Assis, Guimarães Rosa, Aloísio de Azevedo, Érico Veríssimo e
Clarice Lispector, essa mulher profunda e caótica me pegou no nó da linguagem.
Mas, odiava poesia. Tanto a ponto de passar longe da prateleira desse gênero na
biblioteca escolar. O motivo de desgostar me é desconhecido, talvez, seja pela
obrigatoriedade nas maçantes provas de português ou pela temática. Um dia, por
conta de um trabalho dessa disciplina eu escrevi um poema. Desse movimento
surgiu o interesse em ler poesia. Comecei com Manuel Bandeira, Cora Coralina,
Charles Bukowski e Carlos Drummond de Andrade, esse homem, aparentemente calmo,
me enganou e me tirou de mim; sua antologia poética se tornou para mim um livro
sagrado, leio e releio como que em busca de algo que desconheço.
Quando li A Paixão Segundo GH, de
Clarice Lispector, eu não podia ter previsto o que me aguardava. Segurei com
toda a força a mão de GH que me suplicava; creio que nunca soltei-a de fato.
Quero ser guiado por essa mão humana e perturbadora em todas as minhas
leituras.
Minhas córneas e retinas fatigadas
me atrapalham e tiram a habilidade de ler muito e por muito tempo, mas resisto,
resisto como quem morrendo busca o derradeiro suspiro. Leio. Me recuso a deixar
de percorrer com estes olhos cansados as linhas que encontro em toda parte,
pois ao deixar de fazer isso eu estarei cego.
[1]
Artigo de opinião apresentado à disciplina de Produção Textual, ministrada pela
profª Drª Alessandra
Avila Martins.
[2]
Acadêmico do 2º semestre do curso de Letras Português/Inglês, da Universidade
Federal do Rio Grande (FURG).
Foto do graduando Pedro G. Moreira do curso de Letras Português/Inglês (2ºsemestre) da Universidade Federal do Rio Grande (FURG)

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