“Eu e a escrita”
Discente: Alberto
Teixeira
Matrícula: 116214 -
Artes Visuais/Bacharelado
Diversas janelas –
algumas cobertas por uma fina cortina, outras não – permitiam que a luz
natural da rua adentrasse e preenchesse o ambiente com uma luminosidade sutil e
agradável. Meus mais novos colegas se mantinham com a cabeça baixa, concentrados
e focados em completar a proposta feita pela professora, com destreza. Contudo,
isso é uma questão de aparências, afinal de contas pela visão de terceiros eu
provavelmente parecia tão focado quanto qualquer um deles, embora estivesse
longe de sentir-me focado. A cada troca de música, que me permiti ouvir a fim
de encontrar o foco, a ínfima movimentação alheia, a sombra do ventilador que
girava, girava e girava, como meus pensamentos, na velocidade da luz; tudo era
suficiente para me desfocar.
O desvio constante do
foco me fizera recordar de um sonho distante de criança: o de ser escritor, e
isso trouxe consigo a melancolia de ser, ou se sentir, incapaz de alcançar um
sonho. “Não desista dos seus sonhos, nada é impossível”, eles diziam, em
silêncio, enquanto você perde o foco, enquanto perde a noção, dissocia e
sente-se fora de si, sente-se tudo, sente-se o nada, mas não se sente você
mesmo.
Mais uma vez, perda de
foco.
Sempre gostei de criar
personagens e a história deles. Olhando para o meu passado eu diria que são
mais de duzentas histórias começadas, sem nunca ter um fim escrito. Este,
entretanto, está somente na minha cabeça, deixando mil e uma histórias serem
escritas na minha psiquê, enquanto me sinto “livre” e exposto aos estímulos
sensoriais, sem foco, nunca, sempre focando em tudo e em absolutamente nada.
Assim, me distanciei de
único objetivo, um único sonho; me permiti desistir da escrita e usá-la
geralmente como forma de “por pra fora” – como o que faço com a arte em geral –
o que se passa na mente bagunçada e perturbada de um jovem adulto qualquer.
Este texto pode não ter
“nem pé, nem cabeça”, tampouco fazer algum sentido, mas sentado nessa cadeira,
desfocado em um cenário complexo, observo meus colegas. A sala não parece mais
agradavelmente iluminada, meus batimentos cardíacos aceleram razoavelmente pelo
sentimento de incapacidade de completar a tarefa proposta, tudo parece sombrio
agora. E não que isso seja necessariamente ruim, mas será que apenas escureceu
de repente ou foi só mais uma perda de foco?
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